Lesões na Ponta do Dedo: nem sempre é necessário enxerto ou retalho

Lesões na Ponta do Dedo: nem sempre é necessário enxerto ou retalho

As lesões na ponta dos dedos estão entre os traumas mais comuns das mãos. Apesar de pequenas em tamanho, costumam causar um grande susto: a ponta do dedo é muito sensível, possui grande quantidade de terminações nervosas e é bastante vascularizada. Por isso, mesmo um ferimento relativamente pequeno pode provocar dor intensa e sangramento importante.

Além disso, quando ocorre perda de uma parte da pele, exposição da polpa ou lesão da unha, a aparência inicial pode ser bastante assustadora. É comum o paciente chegar ao pronto-socorro acreditando que perdeu definitivamente parte do dedo ou que precisará obrigatoriamente de uma cirurgia complexa.

Mas isso nem sempre é verdade.

Quais são as principais causas das lesões na ponta dos dedos?

As lesões podem acontecer em qualquer idade e em diversas situações do cotidiano. Entre as causas mais frequentes estão:

  • Prender o dedo em portas, janelas ou gavetas;

  • Acidentes domésticos com facas e objetos cortantes;

  • Acidentes com ferramentas, máquinas e equipamentos de trabalho;

  • Lesões durante atividades esportivas;

  • Acidentes com serras e equipamentos elétricos;

  • Mordidas;

  • Traumas em crianças, especialmente quando o dedo fica preso em uma porta.

O mecanismo do trauma é importante porque pode produzir desde um pequeno corte até perda de pele e polpa digital, fratura da falange distal, hematoma sob a unha ou lesão do leito ungueal.

A aparência inicial pode assustar

Um ponto importante é não avaliar a gravidade apenas pela aparência.

A ponta do dedo sangra bastante e pequenas perdas de tecido podem deixar estruturas profundas aparentes. Isso faz com que algumas lesões pareçam muito mais graves no primeiro momento.

Depois da limpeza adequada, controle do sangramento e avaliação por um especialista, muitas vezes percebemos que existe um bom potencial de cicatrização.

É justamente por isso que nem toda lesão de ponta de dedo precisa ser tratada imediatamente com enxerto de pele ou retalho.

Nem sempre é necessário fazer enxerto ou retalho

Quando existe perda de pele na ponta do dedo, existem diversas possibilidades de tratamento. Dependendo do tamanho e da localização da lesão, da exposição óssea, da idade do paciente e das características do ferimento, podemos considerar procedimentos como:

  • sutura;

  • enxerto de pele;

  • retalhos locais;

  • retalhos regionais;

  • regularização óssea em situações selecionadas;

  • ou simplesmente tratamento com curativos seriados e cicatrização por segunda intenção.

Essa última alternativa é muito importante.

Em casos adequadamente selecionados, a própria ponta do dedo apresenta uma excelente capacidade de cicatrização. Com curativos seriados, proteção do ferimento e acompanhamento médico, ocorre progressivamente a formação de tecido de granulação e a cobertura da região lesionada.

O tratamento pode levar algumas semanas e exige comprometimento do paciente com os curativos, mas tem a vantagem de evitar uma cirurgia adicional em muitos casos.

Por isso, diante de uma amputação parcial ou perda de tecido da ponta do dedo, não significa automaticamente que será necessário realizar um enxerto ou um retalho.

A escolha deve ser individualizada.

E quando o osso aparece?

A presença de exposição óssea torna a avaliação mais cuidadosa, mas também não significa automaticamente que será necessário um retalho.

Dependendo das características da lesão, do tamanho da exposição e das condições dos tecidos ao redor, existem situações em que o tratamento conservador ainda pode ser considerado.

Em outros casos, entretanto, a reconstrução cirúrgica é realmente a melhor alternativa para obter cobertura adequada, preservar o comprimento do dedo e recuperar sua função.

Por isso, a avaliação de um cirurgião da mão é importante para definir qual estratégia oferece o melhor resultado funcional com a menor agressividade possível.

A unha foi machucada. Ela vai crescer novamente?

Essa é uma das maiores preocupações dos pacientes.

A unha é produzida principalmente pela matriz germinativa, localizada na região proximal da unha, próxima à sua base. Quando essa estrutura permanece preservada, existe uma boa possibilidade de a unha voltar a crescer.

Entretanto, o crescimento é lento.

As unhas das mãos crescem, em média, aproximadamente 3 milímetros por mês, e a substituição completa de uma unha pode levar cerca de 4 a 6 meses, podendo variar conforme idade, dedo envolvido, circulação e gravidade do trauma.

Por isso, poucas semanas depois do acidente ainda é muito cedo para avaliar o resultado definitivo.

A nova unha pode nascer diferente?

Sim.

Quando o trauma também atinge o leito ungueal ou a matriz da unha, o crescimento pode apresentar algumas alterações. A nova unha pode nascer:

  • com ondulações;

  • dividida;

  • mais espessa;

  • com irregularidades;

  • com alteração de aderência;

  • ou apresentar deformidade permanente nos casos em que houve uma lesão importante da matriz.

Algumas dessas alterações melhoram progressivamente durante os meses seguintes. Outras podem permanecer e eventualmente necessitar de tratamento específico.

É justamente por causa do crescimento lento da unha que o resultado final não deve ser avaliado precocemente.

E a sensibilidade da ponta do dedo?

A polpa digital possui enorme quantidade de terminações nervosas. Depois de uma lesão, é relativamente comum apresentar hipersensibilidade, formigamento, dormência ou desconforto ao encostar o dedo nos objetos.

A recuperação da sensibilidade também pode ser gradual.

Após a cicatrização adequada, alguns pacientes necessitam de exercícios de dessensibilização e reabilitação para voltar a utilizar normalmente a ponta do dedo nas atividades do cotidiano.

O objetivo não é apenas fechar o ferimento

Quando tratamos uma lesão de ponta de dedo, queremos muito mais do que simplesmente conseguir cobertura de pele.

O objetivo é preservar, sempre que possível:

comprimento do dedo, sensibilidade, mobilidade, unha, formato da polpa e capacidade de realizar a pinça.

Por isso, o tratamento mais complexo nem sempre é necessariamente o melhor tratamento.

Em determinados pacientes, um enxerto ou retalho será fundamental. Em outros, curativos seriados e acompanhamento adequado podem proporcionar excelente cicatrização sem necessidade de uma reconstrução cirúrgica maior.

Quando procurar um cirurgião da mão?

Ferimentos profundos, perda de pele, amputação parcial, exposição óssea, deformidade da unha, fraturas, alteração de sensibilidade ou dificuldade para movimentar o dedo devem ser avaliados adequadamente.

Também é importante procurar atendimento diante de sinais de infecção, como aumento progressivo da dor, vermelhidão, calor, secreção ou febre.

Lesionou a ponta do dedo? Não se assuste apenas com a aparência inicial.

Essas lesões frequentemente causam bastante sangramento e apresentam um aspecto preocupante logo após o acidente. Porém, a capacidade de cicatrização da ponta dos dedos pode ser surpreendente.

Existem várias opções de tratamento, desde curativos seriados até enxertos e retalhos. A decisão depende das características de cada ferimento.

Uma avaliação especializada permite escolher o tratamento mais adequado, buscando preservar ao máximo a sensibilidade, o comprimento, a unha e a função do dedo.

Dr. Fernando Pires
Cirurgião da Mão e Microcirurgia
São Paulo – Itaim

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