Mordedura de cachorro: pode dar pontos? Quando procurar um hospital e é preciso observar o animal?

A mordedura de cachorro é um acidente relativamente comum e pode parecer simples à primeira vista. Entretanto, uma mordida pode causar desde uma pequena perfuração da pele até lesões profundas envolvendo tendões, nervos, vasos sanguíneos, articulações e ossos.

Além do problema local, existe a preocupação com infecção, tétano e raiva.

Por isso, após uma mordedura, algumas perguntas são muito importantes:

É necessário dar pontos? Quando devo procurar um hospital? Preciso tomar vacina contra a raiva? Tenho que acompanhar o cachorro por alguns dias?

Neste artigo, vamos explicar o que fazer.

O que fazer imediatamente após uma mordedura de cachorro?

A primeira medida é lavar muito bem a ferida.

O ideal é lavar o local abundantemente com água corrente e sabão, realizando uma limpeza cuidadosa. A OMS recomenda irrigação e lavagem da ferida por aproximadamente 15 minutos.

Depois da limpeza, a pessoa deve procurar atendimento médico para avaliar:

  • profundidade da mordida;

  • presença de lesão de tendão;

  • lesão de nervo;

  • lesão vascular;

  • comprometimento de articulações;

  • necessidade de antibiótico;

  • vacinação contra o tétano;

  • necessidade de profilaxia contra a raiva.

Não coloque álcool, produtos irritantes ou substâncias caseiras dentro da ferida.

Mordedura de cachorro pode levar pontos?

Sim, mas nem sempre.

Essa é uma das principais dúvidas após uma mordida.

As mordeduras de animais apresentam risco de contaminação e infecção. Por isso, não é correto simplesmente fechar toda mordedura com pontos imediatamente.

O Ministério da Saúde orienta que, diante de possível exposição ao vírus da raiva, a sutura não seja realizada de rotina. Quando o fechamento for absolutamente necessário, pode ser feita aproximação das bordas com pontos isolados, após adequada limpeza e avaliação da necessidade de profilaxia antirrábica.

Por outro lado, a OMS reconhece que algumas feridas podem ser fechadas primariamente após limpeza adequada, especialmente quando o risco de infecção é considerado baixo.

Portanto, a decisão de dar pontos depende da localização, profundidade, contaminação e características da ferida.

Mordidas na mão, por exemplo, merecem atenção especial porque podem esconder lesões profundas e apresentam maior preocupação com infecção.

Por que não se deve simplesmente fechar a mordida?

A boca do cachorro contém diversas bactérias. Uma mordida pode levar essas bactérias para tecidos profundos.

Se uma ferida contaminada for fechada inadequadamente, as bactérias podem ficar retidas dentro dos tecidos, aumentando o risco de infecção.

Por isso, antes de decidir pelo fechamento, o médico deve realizar uma avaliação cuidadosa e uma limpeza adequada da ferida.

Em algumas situações, pode ser mais seguro deixar a ferida aberta inicialmente e acompanhar sua evolução.

Quando procurar um hospital?

Toda mordedura que rompe a pele merece avaliação de um profissional de saúde, principalmente quando há sangramento, ferida profunda ou quando a mordida ocorreu na mão.

A avaliação deve ser ainda mais rápida quando houver:

  • mordida na mão ou nos dedos;

  • mordida no rosto ou pescoço;

  • ferida profunda;

  • múltiplas mordidas;

  • sangramento importante;

  • perda de sensibilidade;

  • dificuldade para movimentar um dedo ou a mão;

  • suspeita de lesão de tendão;

  • suspeita de lesão de nervo;

  • exposição de osso ou tendão;

  • ferida próxima a uma articulação;

  • sinais de infecção;

  • cachorro desconhecido ou que não pode ser localizado;

  • comportamento estranho ou suspeito do animal.

Ferimentos nas mãos, polpas digitais, face, cabeça, pescoço e ferimentos profundos, múltiplos ou extensos são classificados pelo Ministério da Saúde entre as exposições que exigem atenção especial para avaliação da profilaxia da raiva.

Quais são os sinais de infecção?

A infecção pode aparecer nas horas ou dias seguintes à mordedura.

É importante procurar atendimento caso surjam:

  • aumento da dor;

  • vermelhidão ao redor da ferida;

  • calor local;

  • inchaço;

  • saída de pus;

  • mau cheiro;

  • dificuldade para movimentar o dedo;

  • febre;

  • vermelhidão se espalhando pelo braço ou mão.

Uma infecção na mão pode evoluir para estruturas mais profundas, incluindo tendões, articulações e ossos.

Por isso, uma mordida aparentemente pequena não deve ser subestimada quando ocorre na mão.

E a vacina contra o tétano?

A mordedura é considerada uma exposição que pode exigir avaliação da vacinação contra o tétano.

A necessidade de reforço ou de outras medidas depende do histórico vacinal da pessoa e das características da ferida.

Por isso, ao procurar atendimento, é importante informar quando foi tomada a última vacina contra o tétano.

Preciso tomar vacina contra a raiva?

Não necessariamente.

A necessidade de profilaxia contra a raiva depende de vários fatores, como:

  • espécie do animal;

  • condição de saúde do cachorro;

  • possibilidade de observação do animal;

  • comportamento do animal;

  • circunstâncias da agressão;

  • localização e gravidade da mordedura;

  • situação epidemiológica da região.

A raiva é uma doença extremamente grave, mas existem medidas eficazes para prevenir a doença após uma exposição. Por isso, a avaliação deve ser feita rapidamente por um serviço de saúde.

Temos que seguir o cachorro?

Quando possível, sim: o cachorro deve ser identificado e observado.

Essa é outra dúvida muito frequente.

Quando a mordedura foi causada por um cão ou gato que pode ser localizado e acompanhado com segurança, o animal deve ser mantido sob observação por 10 dias após a agressão.

Durante esse período, deve-se observar se o animal permanece saudável.

Se o cachorro permanecer saudável durante os 10 dias, isso é uma informação importante para a avaliação da necessidade de profilaxia antirrábica.

Por outro lado, se o animal:

  • adoecer;

  • apresentar sinais suspeitos de raiva;

  • morrer;

  • desaparecer;

o serviço de saúde deve ser informado imediatamente, pois a conduta de profilaxia pode precisar ser iniciada ou modificada.

Importante: não tente capturar um cachorro desconhecido

Se o animal estiver solto, agressivo ou for desconhecido, não coloque sua segurança em risco para tentar capturá-lo.

Procure um serviço de saúde e informe todas as características que conseguir identificar do animal e do local da agressão.

E se o cachorro for conhecido e vacinado?

Mesmo quando o cachorro é conhecido, domiciliado e possui vacinação contra a raiva, a mordedura deve ser avaliada por um profissional.

A vacinação do animal é uma informação importante, mas não substitui a avaliação médica da pessoa mordida.

Também é importante informar se a agressão ocorreu durante uma situação de provocação, brincadeira, alimentação ou se foi uma agressão aparentemente sem motivo.

E se for um cachorro de rua?

A situação merece ainda mais atenção.

Quando o animal não pode ser localizado ou observado, não é possível acompanhar sua evolução durante os 10 dias seguintes. Nesses casos, a equipe de saúde deverá avaliar a necessidade de profilaxia contra a raiva de acordo com as características da exposição e as condições epidemiológicas.

Não espere o surgimento de sintomas para procurar atendimento.

Mordedura de cachorro na mão: atenção especial

Como cirurgião da mão, uma das situações que mais merece atenção é a mordedura envolvendo mãos e dedos.

Uma pequena perfuração pode atingir estruturas profundas, como:

  • tendões flexores ou extensores;

  • nervos;

  • vasos sanguíneos;

  • articulações;

  • ossos.

Além disso, uma infecção profunda pode comprometer significativamente a função da mão.

Por isso, se a mordedura ocorreu na mão e existe dor importante, dificuldade de movimentação, alteração da sensibilidade ou ferida profunda, a avaliação por um médico deve ser realizada rapidamente.

O que NÃO fazer depois de uma mordedura?

Evite:

  • fechar a ferida em casa;

  • colocar substâncias caseiras;

  • aplicar produtos irritantes;

  • ignorar uma ferida profunda;

  • esperar vários dias se houver sinais de infecção;

  • tentar capturar um animal agressivo;

  • deixar de procurar atendimento porque o cachorro “parece saudável”.

O primeiro passo é lavar abundantemente a ferida e procurar avaliação profissional.

Resumindo: o que fazer após uma mordedura de cachorro?

1. Lave imediatamente a ferida com bastante água e sabão.

2. Procure atendimento médico, principalmente se a pele foi rompida.

3. Não coloque substâncias caseiras na ferida.

4. Não dê pontos por conta própria. A decisão sobre fechamento deve ser médica.

5. Verifique a vacinação contra o tétano.

6. Avalie o risco de raiva.

7. Se o cachorro puder ser localizado com segurança, ele deverá ser observado por 10 dias.

8. Se o animal adoecer, morrer ou desaparecer, comunique imediatamente o serviço de saúde.

9. Mordidas na mão, dedos, face, pescoço ou feridas profundas exigem atenção especial.

Conclusão

A mordedura de cachorro não deve ser tratada apenas como um pequeno ferimento na pele. Além da possibilidade de infecção, pode haver lesões profundas de tendões, nervos, vasos, articulações e ossos.

A limpeza imediata da ferida, a avaliação médica, a verificação da vacinação contra o tétano e a análise do risco de raiva são fundamentais.

Se você foi mordido por um cachorro, especialmente na mão ou nos dedos, procure atendimento médico para avaliar a extensão da lesão e definir o tratamento adequado.

Dr. Fernando Pires
Cirurgião da Mão e Microcirurgia
São Paulo – Itaim