A síndrome do túnel do carpo (STC) e o dedo em gatilho (tenossinovite estenosante) frequentemente coexistem. Diversos estudos mostram que entre 20% e 60% dos pacientes com uma dessas condições também apresentam a outra, dependendo da população estudada e dos critérios diagnósticos. Elas compartilham fatores de risco e mecanismos fisiopatológicos semelhantes.
Por que elas estão relacionadas?
1. Inflamação dos tendões flexores
Ambas as doenças envolvem os tendões flexores da mão:
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Síndrome do túnel do carpo: ocorre aumento da pressão dentro do túnel do carpo, geralmente devido ao espessamento das bainhas sinoviais dos tendões flexores, comprimindo o nervo mediano.
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Dedo em gatilho: há espessamento do tendão flexor e da polia A1, dificultando o deslizamento do tendão e causando travamento do dedo.
Ou seja, ambas fazem parte de um espectro de alterações dos tendões flexores e de suas bainhas.
2. Fatores de risco em comum
As duas doenças são mais frequentes em pacientes com:
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Diabetes mellitus
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Hipotireoidismo
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Artrite reumatoide
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Obesidade
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Gravidez
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Insuficiência renal em diálise
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Acromegalia
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Movimentos repetitivos das mãos
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Idade entre 40 e 70 anos
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Sexo feminino
Essas condições favorecem inflamação, retenção de líquido e espessamento dos tecidos.
3. Alterações biomecânicas
Pacientes com síndrome do túnel do carpo frequentemente apresentam:
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diminuição da força de preensão;
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alteração da coordenação dos dedos;
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maior esforço dos tendões flexores durante as atividades diárias.
Esse aumento da sobrecarga pode contribuir para o desenvolvimento do dedo em gatilho.
O dedo em gatilho pode aparecer após a cirurgia do túnel do carpo?
Sim. Esse é um fenômeno bem descrito na literatura.
Após a liberação do túnel do carpo, aproximadamente 5% a 20% dos pacientes podem desenvolver dedo em gatilho nos meses seguintes, principalmente nos primeiros 6 a 12 meses.
As hipóteses incluem:
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mudança na biomecânica dos tendões após a abertura do ligamento transverso do carpo;
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aumento da excursão dos tendões flexores;
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processo inflamatório já existente, que se torna clinicamente evidente após a cirurgia.
Isso não significa que a cirurgia “cause” o dedo em gatilho. Em muitos casos, o paciente já possuía predisposição, e a alteração apenas se manifesta posteriormente.
Quais dedos são mais acometidos?
Após cirurgia do túnel do carpo, os dedos mais frequentemente acometidos são:
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Polegar
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Dedo médio
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Anelar
Quando suspeitar das duas doenças ao mesmo tempo?
É importante investigar ambas quando o paciente apresenta:
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dormência e formigamento nos três primeiros dedos;
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dor noturna nas mãos;
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sensação de choque ao flexionar o punho;
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travamento de um ou mais dedos;
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estalo ao abrir ou fechar a mão;
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dor na palma da mão próxima à base dos dedos.
O tratamento muda?
Quando as duas doenças coexistem, o tratamento deve abordar ambas:
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tratamento conservador (órteses, modificação das atividades e infiltração quando indicada);
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infiltração de corticoide pode beneficiar tanto o túnel do carpo leve quanto o dedo em gatilho em casos selecionados;
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quando há indicação cirúrgica, é possível realizar a liberação do túnel do carpo e a liberação da polia A1 do dedo em gatilho na mesma cirurgia, evitando dois procedimentos e dois períodos de recuperação.
Conclusão
A síndrome do túnel do carpo e o dedo em gatilho são doenças diferentes, mas intimamente relacionadas por compartilharem alterações dos tendões flexores, fatores de risco e mecanismos inflamatórios. Sempre que um paciente apresenta uma dessas condições, vale a pena investigar a presença da outra. O diagnóstico precoce permite um tratamento mais completo e melhores resultados funcionais.